EDT - Projeto de Pesquisa

Bíblia Hebraica - Alcorão e sua interdependência

PROPONENTE: RENATUS PORATH*

1. Justificativa da proposta

Nas primeiras décadas do século passado, iniciava-se - especialmente na Europa - a pesquisa que se deu conta da interdependência da Bíblia Hebraica e do Alcorão. Percebeu-se que havia proximidades de conteúdos no desenvolvimento de temas e de estruturas de pensamento (antropologia, cosmovisão), mas também formas de comunicação e gêneros literários apontavam para muitas semelhanças, sem deixar de ver diferenças importantes.
Observou-se que não se tratava de uma dependência literária direta de um livro sagrado de outro, mas que a história da recepção da Bíblia Hebraica no Corão se dava pela via indireta. A Tora e os demais livros que compunham a Bíblia Hebraica chegaram aos ouvidos do profeta árabe e de seus sucessores no 7. século d.C. através de instâncias responsáveis pela interpretação do livro sagrado nas  comunidades e colônias judaicas no contexto de Meca e Medina.
Aparentemente, conteúdos da Bíblia Hebraica foram absorvidos na literatura sagrada do islã primitivo através da ótica de mestres da comunidade e do seu discurso vigente nos centros de culto e cultura judaicos do mundo árabe de então. Estudos comparativos do Corão com a literatura judaica talmúdica parecem apontar nessa direção. Tradições mais antigas do Talmude parecem estar por detrás de conteúdos  e temas da Tora retomados pelo Corão.
A nova tradição religiosa que se instala no mundo árabe forma-se a partir de diálogo, discussão e controvérsia sobre conteúdos do livro sagrado judaico com a liderança das colônias judaicas da região, conhecedoras da tradição talmúdica incipiente. 
Nessa direção apontavam  os resultados da pesquisa alemã representada por Wilhelm Rudolph ( Die Abhängigkeit des Qorans von Judentum und Christentum, 1922 = a dependência do Corão de judaísmo e cristianismo) e, especialmente, por Heinrich Speyer (Die biblischen Erzählungen im Qoran, 1931, 1961 = as narrativas bíblicas no Corão).
Esses estudos interdisciplinares, que se ocupam com intertextualidade e história da recepção, não progrediram mais tanto depois dos anos 30. Arabistas e hebraístas priorizaram seus estudos auto-referenciados, o que, naturalmente, deverá ter seu lugar na pesquisa. A produção acadêmica especializada sobre a literatura árabe antiga e islâmica e a literatura hebraico-judaica, com certeza, justifica a pesquisa que se volta cada qual para a sua disciplina. De fato, a pesquisa interdisciplinar corre o risco de tender para a superficialidade. Esta proposta, que quer estimular a interface de dois representantes de peso da literatura sagrada universal, terá que  ficar atenta para que esses estudos comparativos ajudem a aprofundar a busca de sentido de cada uma dessas produções literárias.
Aproximar-se desse diálogo e dessa controvérsia, havidos nos primórdios do islã primitivo com as outras tradições religiosas e sua literatura credenciada, e que ainda se refletem no texto corânico, pode significar a retomada de um caminho em direção a novos espaços, onde se exercita a conversação intercultural e inter-religiosa e onde se cria um clima de liberdade que permite aprendizagem mútua e possibilita crítica e autocrítica. Esse diálogo científico a partir das fontes pode significar uma contribuição da academia para fortalecer a consciência de que as culturas com raiz semítica estão mais próximas uma das outras do que à primeira vista possa parecer.

2. Metodologia

A pesquisa de fontes literárias antigas, oriundas do antigo oriente próximo, desenvolveu suas próprias ferramentas de análise e de interpretação; um conjunto de métodos, que procuram respeitar a singularidade da produção literária no seu contexto histórico, distante do nosso, ocidental, tornou-se conhecido como método(s) histórico-crítico(s).
A literatura hebraica foi estudada, nos últimos dois séculos, valendo-se dessa metodologia que faz perguntas históricas sobre contexto, autoria e sentido de unidades textuais menores ou de obras maiores. Sem perder de vista essa perspectiva histórico-crítica, essa metodologia examina especificidades linguístico-literárias antes de descrever precipitadamente o sentido de produções de sociedades antigas. Desse instrumental metodológico podem-se enumerar: filologia e crítica textual, crítica literária (história da formação de um texto/livro), história do pensamento/ da tradição, história das religiões comparadas, história da forma e gênero, história da redação. Uma produção literária específica pode requerer mais este ou aquele método para chegar ao alvo maior, qual seja, a busca do sentido do texto para ouvintes e leitores do passado e da atualidade.
Também a literatura de outros contextos do Antigo Oriente, que não a hebraica, tem sido pesquisada com esse ferramental crítico, fazendo com que as fronteiras entre a pesquisa hebraico-bíblica e a do restante do crescente fértil se tornassem fluidas. Observa-se um enriquecimento mútuo a partir dos resultados da pesquisa de uma área nos estudos do contexto vizinho.
Alguns pesquisadores da literatura hebraico-bíblica, como J. Wellhausen (conhecido por suas teorias de crítica literária do Pentateuco / Torá), W. Rudolph (pesquisador da literatura profética na Bíblia Hebraica) e H. Ringgren (conhecedor de religiões do Antigo Oriente) deixaram suas marcas na pesquisa da história e interpretação do texto corânico, valendo-se da mesma metodologia que aplicavam aos textos hebraicos.
A pergunta pela história da recepção da Bíblia Hebraica no Corão, que tem um peso maior nessa linha de pesquisa, é uma ampliação da pergunta pela história da tradição / história temática. Se esta se limitava ao estudo de um tema, de uma tradição na própria fonte, a história da recepção na pesquisa interdisciplinar – Bíblia Hebraica e Corão – ultrapassa esses limites, pois pergunta pela trajetória percorrida desde a Bíblia Hebraica via Talmude (via Novo Testamento) até ser incorporado no discurso corânico.
Nesse sentido, a história da recepção integra também perguntas que vêm da história das religiões comparadas. Continuidade e descontinuidade entre o texto-matriz e a produção literária corânica poderão ficar evidenciadas, contribuindo, assim, para a busca do sentido próprio tanto de uma, quanto de outra fonte literária.
Tenho me dedicado a estudos comparativos que visavam à compreensão da literatura hebraica, olhando mais para textos anteriores (textos ugaríticos e mesopotâmicos) e contemporâneos (literatura helenística) à formação da Bíblia Hebraica. Com essa proposta, a comparação se dá mais com a literatura que sucedeu à literatura hebraica clássica, concentrando-se na sua recepção no texto corânico depois de ter passado pela tradição talmúdica.
A competência filológica em outras línguas semíticas (ugarítico, hebraico e aramaico) por parte do proponente deste projeto de pesquisa, poderá contribuir para a pesquisa terminológica e conceitual do árabe e possibilita estudos comparativos. Conhecimentos mais específicos da língua árabe, ainda são incipientes e carecem de estudos complementares; a assessoria de colegas da literatura árabe, em especial, mas também da literatura judaica será bem vinda.
Essa ampliação de horizonte de minha área de concentração deu-se a partir de um período de estudos, de maio a agosto de 2006, nos departamentos de “Arabistik” e do centro de estudos religiosos / cadeira Teologia do Islã da Universidade de Münster / Alemanha e de diálogos mantidos no departamento de Ciências da Religião da Universidade de Hannover / Alemanha.

 

3. Desdobramentos deste projeto de pesquisa “Recepção da Bíblia Hebraica no Corão”

A atividade letiva e de pesquisa, sob a perspectiva da interface “Bíblia Hebraica e Corão”, deveria concentrar-se ao redor de dois pólos; uma atenderia mais a aspectos literário-históricos (forma) detectáveis no processo de recepção e uma outra contemplaria mais o estudo comparativo dos dois discursos (conteúdo) inseridos no respectivo contexto sócio-histórico.

a) A interdependência sob os aspectos da análise literária: da Bíblia Hebraica, via Talmude, ao Corão

  1. A história da formação do texto sagrado: da proclamação oral à literatura sagrada (processo de redação, canonização e sua intencionalidade nas respectivas comunidades do livro, apontando para semelhanças e diferenças);
  2. A história da forma e dos gêneros (formas lingüísticas e literárias comparadas – mito, saga, narrativas, relato histórico e outros);

 

b) A interdependência sob os aspectos de análise de conteúdo:

  1. A luta pelo sentido do texto: as estruturas hermenêuticas para a respectiva literatura sagrada;
  2. O diálogo de Maomé com as outras comunidades do livro (análise de suras relevantes sobre        as controvérsias);
  3. O monoteísmo na Torá e no Corão; cosmovisão hebraica e corânica (comparação de textos            relevantes e sua inserção nos respectivos contextos literários e históricos);
  4. Tempo e história; o presente e o escatológico;
  5. Antropologia, indivíduo e sociedade;
  6. A lei/Torá e a lei/Sharia;
  7. Os pilares das respectivas religiões a partir da literatura sagrada;
  8. As tradições proféticas e sua releitura no Corão; semelhanças e diferenças;
  9. Os patriarcas – entre a recepção e a livre releitura;
  10. Temas éticos e estudos comparativos de textos sobre: casa & casamento; religião & política;

 

2. Bibliografia
BOBZIN, Hartmut. Der Koran: eine Einführung. München: Beck, 2004, 5ª ed. revisada.
Der Koran: Arabisch- Deutsch; übersetzt und kommentiert von Adel Theodor Khoury.Gütersloh: Chr. Kaiser e Gütersloher, 2004.
GNILKA, Joachim. Bíblia e Corão ????
NAGEL, Tilman. Geschichte der islamischen Theologie. Von Mohammed bis zur Gegenwart. München: Beck, 1994.
NOBRE ALCORÃO.  Tradução do sentido do NOBRE ALCORÃO para a língua portuguesa de Dr. Helmi Nasr, professor de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de São Paulo.
PARET, Rudi, Mohammed und der Koran. Geschichte und Verkündigung des arabischen Propheten. Stuttgart: Kohlhammer, 1957.
PEREIRA, Rosalie Helena de Souza. O islã clássico: itinerários de uma cultura. São Paulo: Perspectiva, 2007.
SPEYER, Heinrich. Die biblischen Erzählungen im Qoran. Hildesheim: Georg Olms, 1961, 2ª ed. inalterada do original de 1931.
ZIMMERLI, Walther. Der Prophet im Alten Testament und im Islam. In: IDEM, Studien zur alttestamentlichen Theologie und Prophetie. München: Chr.Kaiser, 1974, p. 284-310.  (Theologische Bücherei 51)

Palavras chaves: história da recepção, Bíblia Hebraica, Corão, profecia israelita e profecia árabe.

 

O proponente é doutor em Teologia pela Universidade Ludwig-Maximilians-Univesität, Munique / Alemanha. Atuou na Escola Superior de Teologia (EST), São Leopoldo / RS, na área de Antigo Testamento e história e cultura do antigo Oriente; atualmente é professor da área bíblica na Escola Dominicana de Teologia (EDT), São Paulo.

Voltar

Rua São Daniel, 119 - Alto do Ipiranga - São Paulo - SP - 04288-110 - Fones: 2592 0372/ 2592 0373/ 2592 0374/ 2592 0375