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Universo TeológicoHomilia da celebração dos 500 anos da chegada dos primeiros dominicanos à AméricaPor: André Luis TaváresS. Paulo, 18 de setembro de 2010. Queridas irmãs, queridos irmãos, Acabamos de ouvir um trecho do evangelho segundo Lucas que nos fala da novidade que representa o Evangelho. Podemos dizer: o Evangelho é sempre jovem, sempre dinâmico, não deixa os cristãos se acomodarem ou mesmo envelhecer. Lucas, em seu texto, vai demonstrando a diferenciação entre Israel, antes de Jesus, e o tempo inaugurado por Ele. A Nova Aliança não significa simplesmente modernização das antigas leis, práticas e doutrinas: é uma total novidade, que exige, por isso, uma nova mentalidade; a presença do esposo, do Cristo Senhor, marca esta novidade total, uma ruptura com o legalismo e o conformismo. Por isso, o Evangelho suscita oposições e maravilhamento.
Nove irmãos que formariam a primeira comunidade dominicana nas Américas, aqui chegaram no final do ano de 1510; três deles chegaram primeiro: frei Antônio de Montesinos, frei Bernardo de Santo Domingo e frei Pedro de Córdoba. De bons religiosos, os poderes da época não esperavam nada além de cooperação em seu sistema. Esta cooperação significaria aceitar como normal a escravidão dos índios, bem como seu paulatino extermínio; abençoar a pilhagem das riquezas, enviadas à Europa; submeter as consciências. Felizmente, nossos irmãos não fizeram o que os colonizadores esperavam de bons religiosos! No Quarto Domingo do Advento de 1511, frei Montesinos, em nome da comunidade dominicana, que junta discerniu, orou e estudou a situação na qual se encontrava, que se deixou indagar pelas questões que seu tempo lhe apresentava, prega aos colonizadores, perguntando: “Com que direito, e com que justiça vocês mantêm estes índios em tão cruel e horrível servidão?” Aqui começa de um modo todo especial a grande aventura evangélica de nossa família dominicana nas Américas. Já o citado frei Cajetano, ao comentar a Suma de Teologia de nosso irmão Tomás de Aquino (obra fundamental na formação destes irmãos que hoje nos recordamos), escreve: “Jesus Cristo, Rei dos Reis, a quem todo o poder foi dado no céu e na terra, enviou a tomar posse da terra não soldados de um exército armado, mas santos missionários, como cordeiros no meio de lobos. Daí concluímos que cometeríamos grave pecado se tivéssemos a pretensão de propagar a fé do Cristo pela força das armas. Fazendo isso, não seríamos senhores legítimos das terras conquistadas, mas antes de tudo pilhadores e invasores injustos”. Que nos ensina a nós, Família Dominicana, esta memória? Uma das maiores asceses que podemos conhecer é a vida de estudos, algo constitutivo de nossa vida dominicana. É preciso contemplar para pregar, de modo que corremos o risco, num mundo que nos convida continuamente à dispersão e ao ativismo, de nos esquecermos deste valor fundamental, intrínseco à qualidade de nossa pregação: um estudo sério, que faça parte de nossas vidas, que esteja em nossa agenda! O nosso serviço como dominicanos depende da ascese do estudo. Somos, também no coração da Igreja, convidados a vivermos juntos, a dar exemplo de vida fraterna; lembremos do grande valor da democracia em nossa Ordem. Nossa democracia está baseada na corresponsabilidade, na solicitude que temos uns pelos outros. Quando nos tornamos dominicanos, tornamo-nos irmãos, logo, membros de uma família, co-responsáveis, chamados a prestar atenção no outro, a aprender a difícil arte de ouvir e de estarmos abertos à conversão que a palavra do outro me traz. Na vida de oração, finalmente, seja na liturgia, na oração do rosário ou na intimidade da oração pessoal, temos canal privilegiado da graça do Senhor, que nos fala ao coração, como um amigo. É na oração que crescemos em comunhão com o Senhor, que podemos partilhar de sua intimidade, que nos encontramos com ele, e ao mesmo tempo com nossos irmãos e irmãs. Se na oração buscamos aquele que se deu, que ama a todos os homens, o encontro com o Senhor torna-se automaticamente solicitude para com o próximo. Irmãs e irmãos, recordando estes elementos essenciais de nosso modo de vida, rememorando a chegada dos primeiros irmãos ao Novo Mundo, somos convidados a reavivar, nesta celebração, a graça de pertencermos à Família de Domingos. Escrevia Bernanos que a Ordem é a extensão da caridade de Domingos. Cada um de nós, leigos e leigas, religiosos e religiosas, é parte importante da história de nossa Ordem na América, bem como os fundadores e fundadoras das congregações; se a liberdade é tão marcante em nossa espiritualidade, e se ser livre significa estar aberto a discernir, isto significa que a espiritualidade de nossa família, a mística que a move, é dinâmica. Cada novo dominicano e dominicana representa uma nova possibilidade de pregação. Assim sendo, como lembrávamos no início, nosso carisma não corre risco de se tornar obseleto, pois é próprio dele mesmo a busca pelos novos mundos, que se nos abrem a cada dia, e que buscamos na fidelidade a Deus e aos homens, no coração da Igreja, como Família de Domingos, colocando vinho novo e novos odres. A cada Eucaristia, partilhamos da intimidade do Senhor, que se nos oferece, que se nos dá, e nos alimenta com seu Corpo e Sangue, que vamos receber. Partilhando de sua intimidade, ele nos dê forças para sermos neste mundo canais de sua graça. Amém.
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