Universo Teológico

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Homilia da celebração dos 500 anos da chegada dos primeiros dominicanos à América

Por: André Luis Taváres

S. Paulo, 18 de setembro de 2010.

Queridas irmãs, queridos irmãos,

Acabamos de ouvir um trecho do evangelho segundo Lucas que nos fala da novidade que representa o Evangelho. Podemos dizer: o Evangelho é sempre jovem, sempre dinâmico, não deixa os cristãos se acomodarem ou mesmo envelhecer. Lucas, em seu texto, vai demonstrando a diferenciação entre Israel, antes de Jesus, e o tempo inaugurado por Ele. A Nova Aliança não significa simplesmente modernização das antigas leis, práticas e doutrinas: é uma total novidade, que exige, por isso, uma nova mentalidade; a presença do esposo, do Cristo Senhor, marca esta novidade total, uma ruptura com o legalismo e o conformismo. Por isso, o Evangelho suscita oposições e maravilhamento.


Como nos ensina o Senhor, vinho novo em odres novos! O vinho novo do Evangelho que deve ser continuamente oferecido à humanidade e à Igreja, que tende a se acostumar com o vinho velho. A atenção aos sinais dos tempos é própria de nossa Ordem Dominicana; como nos lembra o parágrafo VIII da Constituição Fundamental dos frades, a Ordem deve renovar a si própria, “discernindo e experimentando o que há de bom e proveitoso no anseio dos homens” (Const. Fund. Par. VIII). É sobretudo nos momentos de maiores mudanças que nós dominicanos temos a alegria de poder experimentar a perene atualidade de nosso carisma, afinal, como nos lembrava S. Catarina de Siena, a missão da Ordem dos Pregadores é a missão do próprio Verbo de Deus: a de pregar a salvação.


É em clima de mudanças fenomenais, de novidade, de reforma na Ordem dominicana que se decide enviar para a América os primeiros filhos de S. Domingos. No Pentecostes de 1508, em Roma, é celebrado o Capítulo Geral de nossa Ordem, que elege como Mestre frei Tomás de Vio Cajetano, que logo se mostrou imensamente preocupado em promover a vida intelectual, a renovação espiritual e apostólica de toda Ordem. Em outro de 1508, o novo Mestre da Ordem determina a frei Tomás de Matienzo, vigário responsável na Espanha, que “envie, com licença do Rei da Espanha, quinze frades à Ilha Espanhola (atualmente República Dominicana e Haiti), para ali fundar conventos e pregar a Palavra de Deus”. Escolheram-se homens destemidos, conscientes que evangelizar é algo sublime, mas bastante perigoso. Foram escolhidos filhos da renovação espiritual, intelectual e apostólica que se operava na Ordem, cuidadosamente preparados para a pregação do Evangelho.

Nove irmãos que formariam a primeira comunidade dominicana nas Américas, aqui chegaram no final do ano de 1510; três deles chegaram primeiro: frei Antônio de Montesinos, frei Bernardo de Santo Domingo e frei Pedro de Córdoba.


O que esperava nossos irmãos neste Novo Mundo? Certamente, um mundo cheio de possibilidades, exuberante, exótico, diferente da Velha Europa; reinava aqui, no entanto, desde a chegada dos primeiros conquistadores, a opressão aos homens que viviam há séculos nestas terras. E diante da injustiça à qual estes povos eram submetidos, não podiam se calar nossos irmãos.

De bons religiosos, os poderes da época não esperavam nada além de cooperação em seu sistema. Esta cooperação significaria aceitar como normal a escravidão dos índios, bem como seu paulatino extermínio; abençoar a pilhagem das riquezas, enviadas à Europa; submeter as consciências. Felizmente, nossos irmãos não fizeram o que os colonizadores esperavam de bons religiosos! No Quarto Domingo do Advento de 1511, frei Montesinos, em nome da comunidade dominicana, que junta discerniu, orou e estudou a situação na qual se encontrava, que se deixou indagar pelas questões que seu tempo lhe apresentava, prega aos colonizadores, perguntando: “Com que direito, e com que justiça vocês mantêm estes índios em tão cruel e horrível servidão?” Aqui começa de um modo todo especial a grande aventura evangélica de nossa família dominicana nas Américas. Já o citado frei Cajetano, ao comentar a Suma de Teologia de nosso irmão Tomás de Aquino (obra fundamental na formação destes irmãos que hoje nos recordamos), escreve: “Jesus Cristo, Rei dos Reis, a quem todo o poder foi dado no céu e na terra, enviou a tomar posse da terra não soldados de um exército armado, mas santos missionários, como cordeiros no meio de lobos. Daí concluímos que cometeríamos grave pecado se tivéssemos a pretensão de propagar a fé do Cristo pela força das armas. Fazendo isso, não seríamos senhores legítimos das terras conquistadas, mas antes de tudo pilhadores e invasores injustos”.

Que nos ensina a nós, Família Dominicana, esta memória?
Irmãs e irmãos, rememorar a chegada de nossos primeiros irmãos à América nos lembra de um valor evangélico fundamental e bastante caro, senão constitutivo de nossa Ordem: a liberdade. Só os homens firmes em Deus e no seu Evangelho podem ser realmente livres; e só os homens livres alcançam sabedoria para agir neste mundo, sem serem coibidos pelos seus poderes. É preciso recordar a todo momento, à Igreja e à sociedade, que o homem, imagem e semelhança do Criador, é livre. Respeitar e reconhecer esta liberdade é saber que existe uma profunda contradição na imposição, na opressão. É a liberdade dominicana que nos possibilita, de modo coerente, buscar a verdade! É a liberdade a base de uma real fraternidade. É esta a liberdade de renovar o vinho, de colocá-lo em novos odres, de estar com o esposo, que todos buscamos.
Nossa Família Dominicana está no coração da Igreja, como estava Nosso Pai no “meio da Igreja”. Não está ao lado dela nem contra ela. E é no coração da Igreja que ela oferece ao mundo seu serviço da busca pela verdade, da vivência da liberdade, com seu modo de vida, ou seja, através do estudo, da vida em comum e da oração.

Uma das maiores asceses que podemos conhecer é a vida de estudos, algo constitutivo de nossa vida dominicana. É preciso contemplar para pregar, de modo que corremos o risco, num mundo que nos convida continuamente à dispersão e ao ativismo, de nos esquecermos deste valor fundamental, intrínseco à qualidade de nossa pregação: um estudo sério, que faça parte de nossas vidas, que esteja em nossa agenda! O nosso serviço como dominicanos depende da ascese do estudo.

Somos, também no coração da Igreja, convidados a vivermos juntos, a dar exemplo de vida fraterna; lembremos do grande valor da democracia em nossa Ordem. Nossa democracia está baseada na corresponsabilidade, na solicitude que temos uns pelos outros. Quando nos tornamos dominicanos, tornamo-nos irmãos, logo, membros de uma família, co-responsáveis, chamados a prestar atenção no outro, a aprender a difícil arte de ouvir e de estarmos abertos à conversão que a palavra do outro me traz.

Na vida de oração, finalmente, seja na liturgia, na oração do rosário ou na intimidade da oração pessoal, temos canal privilegiado da graça do Senhor, que nos fala ao coração, como um amigo. É na oração que crescemos em comunhão com o Senhor, que podemos partilhar de sua intimidade, que nos encontramos com ele, e ao mesmo tempo com nossos irmãos e irmãs. Se na oração buscamos aquele que se deu, que ama a todos os homens, o encontro com o Senhor torna-se automaticamente solicitude para com o próximo.

Irmãs e irmãos, recordando estes elementos essenciais de nosso modo de vida, rememorando a chegada dos primeiros irmãos ao Novo Mundo, somos convidados a reavivar, nesta celebração, a graça de pertencermos à Família de Domingos. Escrevia Bernanos que a Ordem é a extensão da caridade de Domingos. Cada um de nós, leigos e leigas, religiosos e religiosas, é parte importante da história de nossa Ordem na América, bem como os fundadores e fundadoras das congregações; se a liberdade é tão marcante em nossa espiritualidade, e se ser livre significa estar aberto a discernir, isto significa que a espiritualidade de nossa família, a mística que a move, é dinâmica. Cada novo dominicano e dominicana representa uma nova possibilidade de pregação. Assim sendo, como lembrávamos no início, nosso carisma não corre risco de se tornar obseleto, pois é próprio dele mesmo a busca pelos novos mundos, que se nos abrem a cada dia, e que buscamos na fidelidade a Deus e aos homens, no coração da Igreja, como Família de Domingos, colocando vinho novo e novos odres.

A cada Eucaristia, partilhamos da intimidade do Senhor, que se nos oferece, que se nos dá, e nos alimenta com seu Corpo e Sangue, que vamos receber. Partilhando de sua intimidade, ele nos dê forças para sermos neste mundo canais de sua graça.

Amém.

 

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