|
Edward Schillebeeckx: um teólogo na ágora da cidade secular e plural*
Se todo grande pensador – segundo o filósofo Heidegger – sempre é guiado por um único pensamento, que se desenvolve em múltiplas variações, pode-se afirmar que o pensamento-guia da pesquisa e da reflexão teológica de Edward Schillebeeckx (1914-2009) é uma problemática de fronteira e precisamente a relação entre experiência cristã e experiência humana.
Teólogo belga de língua flamenga, professor de teologia primeiro em Louvain, na Bélgica, e posteriormente (a partir de 1958) na faculdade de teologia da Universidade Católica de Nijmegen, na Holanda, a figura de Schillebeeckx começou a se definir no panorama teológico e eclesial na primeira metade dos anos 60, por ocasião do Concílio Ecumênico Vaticano II, ao qual ele participou como consultor teológico do então dinâmico episcopado holandês. Uma das temáticas mais inovadoras do Concílio, a que, segundo a enunciação corrente, respondia ao nome de "Igreja e mundo", encontrava, nas conferências e nos artigos desse teólogo nórdico, o intérprete mais sensível e mais perspicaz, como depois também documentaria a série de volumes de título geral "Sondagens teológicas" (cinco volumes, 1964-1972), que reúnem os múltiplos ensaios com os quais ele acompanhava tanto o debate conciliar, quanto o debate teológico no campo internacional.
Na obra de Edward Schillebeeckx, podem-se distinguir dois períodos. No primeiro – que deve ser colocado entre os inícios da sua atividade acadêmica no imediato pós-guerra, em 1946, e o imediato pós-Concílio, em 1966-1967 – a sua reflexão se põe na linha de um tomismo aberto: são desse primeiro período os seus estudos sobre a teologia dos sacramentos, como a reconstrução histórica da teologia sacramentária em "A economia sacramental da salvação" (1952) e o posterior tratamento sistemático desenvolvida em "Cristo, sacramento do encontro do homem com Deus" (1958). Os escritos desse período são caracterizados pelo método histórico, que reconstrói a história da doutrina antes de passar para a elaboração sistemática – método aprendido na escola de Le Saulchoir e na École des Hautes Études da Sourbonne (onde o ex-reitor da Le Saulchoir, Chenu, dava cursos de especialização); e do prospectivismo gnoseológico, aprendido em Louvain na escola de De Petter, que propunha um síntese entre tomismo e fenomenologia.
No segundo período, que inicia no imediato pós-concílio e que encontra a sua primeira expressão nas conferências norte-americanas de 1967, "Deus, o futuro do homem", ocorre – como alerta o teólogo norte-americano Robert Schreiter, então discípulo de Schillebeeckx em Nijmegen e um dos melhores conhecedores de sua teologia – uma "notável mudança". A partir daí, realiza-se uma mudança, que leva o teólogo dominicano a abandonar o tomismo de escola (também na reinterpretação dos seus mestres de Louvain e de Paris), que nas obras anteriores representava o quadro conceitual de referência, para se confrontar com as novas hermenêuticas e para dialogar mais diretamente com a experiência do homem secular da modernidade e da contemporaneidade. Nesse segundo período – o mais original e criativo – o teólogo de Nijmegen lida com a problemática hermenêutica, que ele introduz na teologia sistemática católica e que aplica com rigor e radicalidade no próprio coração da tratatística teológica, isto é, à cristologia.
A teoria hermenêutica põe o problema da interpretação, isto é, da inteligibilidade dos textos da revelação, da sua atualização e da relevância experiencial das fórmulas de fé. Ela havia feito o seu ingresso na teologia evangélica com a hermenêutica de Schleiermacher, e decisivamente no nosso século com a hermenêutica existencial de Bultmann, Fuchs e Ebeling nos anos 40 e 50. A tentativa dos ensaios hermenêuticos de Schillebeeckx – reunidos no quinto volume das suas "Sondagens teológicas" como título "Inteligência da fé" (1972) – é a de oferecer uma contribuição à introdução da hermenêutica na teologia sistemática católica.
A teologia católica pós-conciliar, que começava a se confrontar com a cultura secular, se deu conta de que as fontes da reflexão teológica são duas: a revelação e a tradição cristã, de um lado, e a experiência humana, de outro. E o trabalho hermenêutico a ser desenvolvido é o de realizar uma constante correlação entre as duas fontes (ou os dois polos): fé cristã e experiência humana. Mas a própria fé, como adesão à revelação (antes fonte da teologia), tem uma estrutura experiencial; a fé é uma experiência e é uma experiência com experiências, isto é, experiência cristã com experiências humanas (a experiência de si e do mundo que os cristãos têm como seres humanos). No início, não houve uma doutrina, mas "começou com uma experiência bem precisa", que colocou em ação uma "história de experiências", que continua.
Nas origens do Novo Testamento, de fato, houve um encontro de Jesus com os seus discípulos, os quais, nesse encontro, "perturbador e comovedor", fizeram uma experiência-de-salvação, que depois interpretaram e fixaram por escrito. A interpretação também faz parte da experiência, já que toda experiência contém elementos interpretativos, é um perceber interpretando. O Novo Testamento é, definitivamente, o relato de uma experiência-de-salvação interpretada: a experiência se declina em uma mensagem, e a mensagem é transmitida gerando no ouvinte uma experiência-de-vida. A mensagem remete a uma experiência como origem e ativa experiência como resultado.
A revelação divina não é, na sua origem, uma doutrina, mas sim a livre iniciativa de Deus que se comunica manifestando-se em fatos que determinam uma experiência-de-salvação, que é interpretada e fixada em uma mensagem escrita. A mensagem contém uma doutrina, mas a doutrina não é o elemento primário, mas sim a experiência. A doutrina é como um reordenamento, no plano da reflexão e do aprofundamento daquele conteúdo de experiência, que está nas origens, e serve para a transmissão e ativação de uma tal experiência-de-salvação. E, portanto, nos insere na viva tradição cristã fazendo experiência: "Em definitivo, trata-se, portanto, de uma história cristã de experiência que continua".
Mas para que a "história cristã de experiência" continue, a mensagem transmitida deve ser compreensível também para o homem de hoje, e não deve só ser aceita com base em uma autoridade institucional que a media. Na sociedade secular, a experiência religiosa não é mais uma "high experience", uma experiência forte generalizada, mas se configura como "experiência com experiência"; ela deve, portanto, se inserir no contexto das experiências humanas seculares para se fazer convicção e experiência pessoal. A mensagem da tradição deve ser proposta em uma "catequese de experiência" como interpretação possível das experiências humanas, como "projeto de pesquisa" para a busca de sentido do ser humano e deve poder ser experimentada como "resposta de libertação" às interrogações vitais que o ser humano se coloca. A teologia é chamada a manter aberta a comunicação entre os conteúdos tradicionais da fé e a experiência humana, em uma constante correlação crítica entre as duas fonte, a tradição bíblica (primeira fonte) e o nosso mundo atual de experiência e de vida (segunda fonte).
O teólogo flamengo enfrentou concretamente esse empenho em um vasto "projeto cristológico" em três densos volumes: "Jesus, a história de um vivente" (1974), no qual a experiência cristã fundamental é analisada na corrente sinótica; "O Cristo, a história de uma nova práxis" (1977), em que a experiência cristã fundamental é analisada nas outras correntes neotestamentárias, particularmente no paulinismo e no joanismo e em que, em uma sugestiva síntese conclusiva, localizam-se os elementos estruturais tanto da tradição cristológica da Igreja, quanto da experiência do homem secular; "Humanidade, a história de Deus" (1989), no qual se mostra como o coração da mensagem cristã, salvação-em-Jesus-por-parte-de-Deus, pode ser novamente experimentado na história da humanidade.
Esses três livros do teólogo de Nijmegen representam a obra cristológica mais vasta e mais criativa do nosso século. Ela é inovadora sob o perfil metodológico: Schillebeeckx não segue o fio condutor da tradição da Igreja (como geralmente ocorre nos tratamentos cristológicos), mas aceita o desafio de negociações radicais, praticando com radicalidade o método histórico-crítico. Schillebeeckx pretende colocar em ação um saber histórico que seja o mais intransigente possível, mas a sua pesquisa história é sustentada pela tentativa teológica de reconstruir a gênese da confissão cristológica da Igreja e de mostrar a sua pertinência também para os contemporâneos da cidade secular. O método é em si mesmo legítimo e não leva a uma racionalização do fato cristológico; a discussão que se seguiu a ele – também em nível oficial – se refere só a algumas modalidades de execução daquilo que pode ser chamado de um verdadeiro "experimento em cristologia".
Schillebeeckx não considera que a secularização invalide o discurso teológico, enquanto a autocompreensão humana secular continua aberta ao mistério, como se pode deduzir da confiança radical na realidade, do compromisso pelos outros, pela instância de realizar o bem e da luta contra o mal. Pelo contrário, a secularização ressitua o discurso teológico, e a tarefa da hermenêutica é o de ajudar a determinar uma situação que permita que a autocompreensão secular transcenda e se abra ao mistério da vida e da realidade, que encontrou uma revelação decisiva e definitiva na figura do Cristo. As afirmações de fé e os enunciados teológicos não são deduzíveis da experiência, mas devem ter a cobertura da experiência, ou seja, devem ser capazes de iluminar a experiência, de falar à experiência do homem secular; senão, não são defendíveis e se chegaria a uma ruptura de comunicação.
Para obter isso, a teologia deve constantemente pôr em correlação a resposta da fé com a pergunta humana, que surge da experiência. E essa correlação é obtida se a pergunta humana é configurável como pergunta de sentido sobre a realidade e sobre a existência, à qual seguem-se repostas humanas que tentam articular um sentido, mas que só da respostas cristã recebe uma superabundância de sentido, um sentido último e definitivo. A resposta cristã é, então, a resposta resolutiva ao buscar humano, que se articula em pergunta radical e em resposta parcial. À pergunta radical sobre a realidade, só a fé responde de modo radical, mas a resposta cristã não cai perpendicularmente do alto, mas se insere em um contexto de experiência em que adquire sentido, doando superabundância de sentido. E essa superabundância de sentido deve dar prova de si não só na teoria, mas deve descer também sobre o campo da práxis. Nesse sentido, fala-se de "hermenêutica da experiência e da práxis".
A teologia de Schillebeeckx não busca a contraposição e o choque com a cultura secular – essa é a atitude do pensamento religioso fundamentalista, também de marca católica –, mas se faz partícipe da busca humana, torna-se atenta aos múltiplos projetos antropológicos, que a cultura secular vai elaborando, os quais, mesmo na sua fragmentação, se revelam como tematização de uma experiência universal de busca de sentido, que remete a um horizonte de plenitude de humanidade, que é o horizonte da fé.
Uma teologia, portanto, que tem o vivo sentido da integridade do "Humanum", nas suas dimensões antropológica, social e cultural, teórico e prática, utópica e religiosa. Uma teologia que elabora uma soteriologia em chave moderna, enquanto guiada pela preocupação, em sentido negativo, pelo "humanum" ameaçado (Bloch) e pela história de sofrimento e de morte da humanidade; e, em sentido positivo, pelo "souhaitable humain" (Ricoeur) como plenitude e integridade do "humanum": ambas as preocupações são compartilhadas, nos seus níveis, pelos movimentos seculares de emancipação e de libertação, mas encontram na salvação cristã radicalidade e plenitude de interpretação e sentido.
Não é possível falar de salvação cristã pulando, ou censurando, ou denegrindo a história da emancipação/libertação humana para dar lugar à salvação religiosa. O que unifica a cultura na época moderna e contemporânea é a busca não de uma salvação exclusivamente religiosa, como podia ocorrer em épocas passadas, mas sim a busca de uma humanidade sadia, íntegra e digna de ser vivida. Todas as ciências, que não existiam nas épocas passadas, trabalham nessa direção. A redenção cristã não pode ser reconduzida à emancipação/libertação histórica, mas a ela "permanece porém ligada por uma relação crítica de solidariedade". Invertendo o títutlo de um best-seller do começo dos anos 60, "Honest to God" [Honestos com Deus] – que no seu tempo encontrou no teólogo de Niejmegen um dos críticos mais lúcidos –, se poderia caracterizar a instância que guia a reflexão – hermenêutica, cristológica e teológica – de Edward Schillebeeckx, com a exigência de ser "honestos com o mundo".
Schillebeeckx foi um teólogo de fronteira, com antenas entre as mais sensíveis para captar e colocar em questão a relação entre Igreja e mundo (como o seu co-irmão, o grande Congar, teve que reconhecer).
Foi um teólogo fiel à sua comunidade, mas que pensava e argumentava na ágora da cidade secular, melhor, ainda mais, e antecipadamente, na ágora da sociedade do secularismo e do pluralismo cultural e religioso. Nesse sentido, um livro a ser retomado é o volume conclusivo da sua trilogia cristológica, "Humanidade, a história de Deus", em que a Igreja é delineada, com doutrina e inspiração espiritual, como "comunidade de graça" na "comunidade mundial".
No ano 2000, apareceu a edição francesa da sua primeira obra volumosa "De sacramentele Heilseconomie" (Anvers, 1952): "L’économie sacramentelle du salut" (Friburgo, Suíça, 2004). O capítulo final (anexado), "Vers une redécouverte des sacraments chrétiens", que remonta ao ano 2000, é como o esboço essencial de uma teologia dos sacramentos, na qual ele trabalhava, apesar das dificuldades de saúde, nos últimos anos.
*Fonte: IHU
|
|